Uma breve nota sobre Avaliação de Empresas

Por Marçal Serafim Cândido

Um dos maiores desafios na área de finanças corporativas é a determinação do valor de uma empresa. Isso porque o processo de se avaliar uma empresa envolve a estruturação e análise de um amplo conjunto de dados de forma a se chegar em uma estimativa confiável do valor de um negócio. Há várias maneiras de se chegar ao valor de uma empresa, entretanto, três são metodologias são mais consolidadas, tanto no contexto acadêmico, quanto prático (PÓVOA, 2012).

A primeira metodologia é baseada exclusivamente nos relatórios contábeis, a qual é conhecida como “valor patrimonial”. Nessa abordagem, o valor da empresa é determinado pelo valor do patrimônio líquido contábil, ou seja, desconsidera informações de mercado atuais e futuras, uma vez que o “calcanhar de Aquiles” da informação contábil é o fato de ainda prender-se muito ao passado.

Já a segunda metodologia mais utilizada é chamada de “avaliação relativa” ou “avaliação por múltiplos”, em que o valor da empresa é obtido por meio da comparação com outras empresas de mercado. Por exemplo, um dono de uma rede de supermercados no sul de MG que fatura R$ 20 milhões por ano e quer saber o valor de sua empresa, ele utiliza uma empresa comparável que tenha ações na bolsa, digamos o grupo Pão de Açúcar. Por meio da análise dos valores de mercado do Pão de Açúcar, ele observa que o Pão de Açúcar está avaliado a sete vezes do faturamento anual. Nesse caso, o dono da rede de supermercados no sul de MG utiliza o faturamento dele multiplicado pelo múltiplo sete para obter o valor da rede de supermercado, o que nesse caso resultaria em R$ 140 milhões (R$ 20 milhões x sete). Contudo, um desafio desta metodologia é encontrar empresas comparáveis para obter o múltiplo, pois neste breve exemplo, assumimos que a rede de supermercado do sul de MG vende os produtos e está sujeita a riscos semelhantes ao do Pão de Açúcar, o que nem sempre é válido.

Já a terceira abordagem, chamada de Fluxo de Caixa Descontado (FCD), o valor da empresa é obtido pela projeção de fluxos de caixas futuros da empresa, os quais trazidos a valor presente, obtém-se o valor do negócio. Essa metodologia de FCD possui vários atributos que a torna uma das mais consistentes e robustas (DAMODARAN, 2017). No entanto, por outro lado, essa metodologia também traz consigo alguns desafios, como a estimativa da taxa de desconto dos fluxos de caixa bem como o horizonte de projeção e premissas assumidas.

Nota-se, portanto, que as três metodologias apresentadas possuem alguns desafios e, mesmo aqueles mais acostumados com gestão de negócios podem incorrer em erros irreversíveis. Exemplo desse tipo de erro foi cometido pelo fundo 3G, formado pelos donos da AMBEV. O fundo 3G, juntamente com Warren Buffet, um dos maiores investidores do mundo, fizeram a aquisição do controle da Kraft Heinz por um valor, mas cujas expectativas não foram atingidas. Resultado disso, foi o reconhecimento de uma perda de US$ 7,3 bilhões. Nesse caso, tanto o fundo 3G quanto Warren Buffet, reconheceram a falha na avaliação feita na compra da Kraft Heinz (veja reportagem citada nas referências deste texto).

Em suma, com dito no início, avaliar uma empresa é uma das tarefas mais desafiadoras na área de finanças, pois erros podem custar alguns bilhões de dólares, como no caso da Kraft Heinz. No entanto, boas análises, fundamentada em evidências e consistência lógica podem minimizar erros, ou mesmo, permitem identificar aquelas empresas que estão “baratas” e com isso obter retornos expressivos em transações empresariais.

CLIQUE AQUI e receba uma consultoria personalizada para sua empresa!

Referências:

CUCOLO, E. Sonho grande da Kraft Heinz acabou, diz Jorge Paulo Leman. Folha de São Paulo. São Paulo, 6 jul. 2019. Disponível em: https://www.valor.com.br/empresas/6218679/kraft-heinz-e-os-estragos-das-baixas-contabeis

DAMODARAN, A. Avaliação de Empresas. São Paulo: Pearson, 2014.

DAMODARAN, A. Narrative and Numbers. New York: Columbia Business School, 2017.

PÓVOA, A. Valuation: como precificar ações. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

Conteúdo elaborado por Marçal Serafim Cândido, Sócio-Consultor do IPECONT, professor nas áreas de Governança Corporativa, Compliance, Finanças e Auditoria. É economista e contador, com mestrado e doutorando em Controladoria e Contabilidade pela USP.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

* Copy This Password *

* Type Or Paste Password Here *

Responda a questão abaixo *

Join the mailing list

Check your email and confirm the subscription

Visit Us On TwitterVisit Us On FacebookVisit Us On YoutubeVisit Us On LinkedinVisit Us On InstagramCheck Our Feed